22.5.13

V: Como viver bem após a morte.

Não ignore nem negue.
Não se lembre só da última vez que o viu.
Não leve flores a quem não sente.
Não tenha razões pra se culpar.

Instante

É na calada da noite
Que ouço o piscar dos meus olhos
Cujas pupilas se dilatam
Para receber a imensidão escura
Acompanhada dos sentimentos mais íntimos
Multiformas do dia, com sabor de frutos amargos
Carregados por vozes
Que podem ser meu Eu
Ou Espírito de Deus
Mas que não deixam dormir.

Escuto o respirar dos que dormem
E os pensamentos dos insones:
Posso sentir suas vozes,
Ouvir o tom amarelado do arrepender-se
Ver o frescor do refazer-se a um novo dia,
E refazer-me com eles
Sob a luz de seus movimentos agüiviventes,
Porque nesse momento minhas reflexões já não bastam.

19.5.13

IV: Como fazer poesia no século XXI

a situação do poeta chegou a tal ponto
que ele escreve pra outros
que escrevem pra ele
que escreve pra outros
que escrevem pra ele
que escreve pra outros...

e o leitor?
cadê?

18.5.13

Transa

Ao provável parceiro poético, com amor novo e súper-pulsante.

papel é a cama
onde o poema se faz a dois:
minha poesia e a sua poesia vão fundir-se assim,
sem pudor,
se entrelaçar
se confundir
nos confundir
despertencer e bastar-se.
filho é do mundo e pro mundo,
né não?

9.5.13

Ama o Poema

a m e o p o e m a
a m e o p o e m a
a m e o p o e m a
a m e o p o e m a
a m e o p o e m a
a m e o p o e m a

o que mais me intriga nessas formas
não é eu ter escrito algumas de trás pra frente e você não ter notado:
é só agora perceber que se você não existisse
não haveria o palíndromo nem este poema.


Para Lara.

7.5.13

Rum

O cãozinho sentado à minha janela todo dia
me ama com o abanar da cauda;
não entende nada do que eu canto ou digo
e só virou amigo
porque compreende o silêncio latente em cada movimento meu.

6.5.13

O stress era o mal do século passado; neste século, vive-se sob stress da insônia. Começamos o dia estressados por ter dormido pouco, ou quase nada, ou nada mesmo. É a música alta do vizinho, é a TV do quarto ao lado, é a sirene da polícia, da ambulância, dos bombeiros, do SAMU. Cachorro latindo, gata miando, pássaros e galos cantando fora de hora e da forma mais desordenada possível. É a cabeça rodando em volta do stress do dia inteiro, preenchido de sono e café (que não deixa dormir e nos faz viver nesse ciclo sem sono vicioso pela eternidade). E ainda há quem tenha a pachorra de reclamar do cri-cri do grilo. Saiba essa gente que, quando se trata de corpo cansado e mente vazia (raramente simultâneos e noturnos), o cri-cri vira canção de ninar.

13.4.13

Sobre descobrir-se apaixonado antes de ser correspondido

Agora que sei que quero você,
vai tudo pelos ares.

11.4.13

Ah, Carlos, você, com toda essa timidez, essa mania de falar de poesia com poesia pra poesia e pela poesia, me surpreendeu hoje. Tem coisa mais natural do que falar do aspecto mais natural do amor?, da carne, dos corpos, da cama e do chão? Conhecer seu lado sacana me fez ver que você é gente, Carlos; senti seu sangue nas veias, hoje, (eu sei, foi tarde, me perdoa), mas não me decepcionei.

Sobre O amor natural, mais um texto ao Drummond.

9.4.13

Da meia-noite às seis, é a poesia que lê você.

8.4.13

Coisa boa de se ouvir

calm down, you needn't say anything.
I already know it ('cause)
you already show it
simply by the unnatural way
your body behaves
when I'm near.

5.4.13

III: Como organizar o tempo. (ou Como praticar tortura 2)

Passe um tempo pensando sobre seus erros.
Passe outro tempo pensando sobre os motivos dela.
Passe o dobro do tempo se perguntando
por que perdeu tanto tempo pensando.

II: Como amar no século XXI

Fala pra ele tudo que ninguém sabe.
Jura amor eterno.
Vai morar com ele.
Desconhece-o aos poucos,
até não saberes com quem vives,
e, dois meses depois, separa-te.

1.4.13


perdoar-te e quebrar-te os ossos
num abraço apertado
é mais rápido e menos cansativo
do que alimentar esse rancor
que machuca bem mais a mim,
roendo-me a alma com seus dentinhos afiados.
pra quem não sabe dizer eu te amo
nem demonstrar isso publicamente
é assustadoramente romântico
pegar-se devaneando
em criar o contexto
para a boca pequena
– de fala sarcástica
e sorriso modesto –
que adora cinema
proferir aquelas falas engraçadas
dos filmes mais bizarros do mundo.

30.3.13

Nas entrelinhas

Não minta pra mim:
você acha que eu não sei
que por dentro você sente
"antes só do que ser má companhia"?

9.3.13

Extensão do poema de dois versos

Para Keila e Alberto

Que o café é cafézinho, a gente já sabe.
Mas não me venha com essas redundâncias.
Por que oferece-me café preto ou com leite?
Com leite ou sem leite, meu cafézinho é puro.
Purinho café.
Preto também, forte também, mas isso fica subentendido.

4.3.13

já dizia minha avó:
há males que vêm pra bem.
e enquanto ela fingia esse consolo, eu cá pensava:
bons no fundo são aqueles que não vêm.

poema sem pretensão de ser poesia, só uma lembrança de Angélica.

27.2.13


gente que bebe e ri de
gente que bebe e provoca
gente que bebe e briga com
gente que bebe e chora por causa de
gente que bebe e trai
gente que nem bebe e
se indigna porque
assiste a tudo isso tentando encontrar o porquê.

25.2.13

Sempre pensei que algumas palavras tivessem sentidos trocados. Maturidade e infantilidade são dois belos exemplos. Ser maduro não é oposto de ser criança: é ser sensato e pra ser sensato, a idade não interfere.

Crianças e velhos, o primeiro por não ter vivido e o segundo por ter vivido o suficiente pra saber que não deveria ter mudado, são muito mais sábios do que qualquer adulto no viver. São abusivamente sinceros, mas por que não ser? Não têm medo do erro, nem do riso do outro, nem da rejeição.
Ninguém gosta de ouvir não, mas eles não guardam rancor, não se apegam, não esperam nada do outro, não o julgam, não exigem nada além do que aquilo que dão e geralmente não recebem: carinho e atenção.
Adultos é que são infantis (e moralistas, estão sempre exigindo dos demais a postura madura que eles mesmos não têm!). Não veem as coisas como elas são, só como lhes parece ou convém. Triste, não?